Veterinário alentejano aposta na inovação da pecuária em Angola

Carlos Silva levou o conhecimento adquirido no Alentejo até Angola, onde participa no desenvolvimento de um projeto pecuário que tem vindo a transformar a produção de ovinos. Através do melhoramento genético e de técnicas de reprodução, a exploração tem conseguido aumentar a produtividade e afirmar-se num setor em crescimento.

Aníbal Fernandes (texto)

Terminado o secundário, em Ponte de Sor, Carlos Silva rumou à Escola Universitária Vasco da Gama, em Coimbra, onde se licenciou em 2008. O gosto por ensinar levou-o a tornar-se professor assistente na Universidade Lusófona, experiência que lhe proporcionou um primeiro contacto com a realidade africana. «Comecei a dar aulas em 2012 e, no âmbito de um protocolo entre a universidade e o Ministério da Agricultura de Angola, surgiu o convite para dar formação a alguns colegas veterinários angolanos e capacitá-los para outras áreas».

Especializado em reprodução e inseminação artificial, «palavra puxa palavra», e uma empresa portuguesa na área agrícola desafiou-o para iniciar um projeto pecuário com ovinos numa propriedade que entretanto tinha adquirido na província do Zaire, a norte de Luanda: a Fazenda Girassol.

Esta exploração, com cerca de 10 mil hectares, «apostava na produção de fruta e, a seguir, introduziram ovelhas para fazer controlo de pastagens no meio dos pomares. Associado a isso surgiu a compostagem, onde os animais têm um papel fundamental na produção de estrume. O proprietário, por piada, costuma dizer que só a fazerem esterco os animais já justificam o investimento», conta Carlos Silva.

O trabalho começou com base em raças autóctones — as gentias — «muito rústicas e adaptadas àquele ambiente, mas, para diversificar, importaram-se da Namíbia duas raças [dorper e meatmaster], cuja característica principal é serem deslanadas, sem lã, o que lhes permite sofrer menos com o calor e não necessitarem de ser tosquiadas», tendo como objetivo final a produção de carne. Hoje, o efetivo é de cerca de oito mil animais e todo o processo, da produção ao embalamento, é realizado na fazenda.

Mas o maior desafio foi «levar sémen de raças europeias, muito cárnicas» [Suffolk, Île-de-France e Charollais], e cruzá-las com as raças africanas, de forma a aumentar o peso dos animais. Quando começou a trabalhar, estavam a «abater animais com o peso vivo entre 25 e 30 quilos, com 11 meses de idade; agora estamos a desmamar borregos com 36 quilos, mas com apenas 90 dias de vida».

O veterinário alentejano diz que o «melhoramento genético é a base da evolução de qualquer exploração». Assim, recentemente, selecionaram as «melhores mães do rebanho no que toca à fertilidade, prolificidade e qualidades maternais no acabamento das crias» e inseminaram um grupo de 300 animais para «fortalecer o que de melhor têm e deixar na descendência».

«Se a isto juntarmos a introdução de medidas de maneio, controlo de desparasitação e a vacinação, obtemos animais mais saudáveis, que tiram partido daquilo que comem, que é exclusivamente no pasto. Não utilizamos rações porque chegam lá a um preço proibitivo».

O gosto por esta especialidade — a reprodução, inseminação e transferência de embriões — nasceu do facto de, após terminar o curso, ter iniciado, em conjunto com o pai, uma pequena exploração de ovinos de raça Suffolk. A experiência nesse campo abriu-lhe as portas de África e, até agora, com resultados muito positivos.

Aliás, Carlos Silva está convencido de que «África é o futuro. É o continente que mais vai crescer, tem mais terra disponível e onde se deve apostar forte. Já começa a haver controlo de qualidade, particularmente na pecuária. Tem tudo para correr bem», preconiza.

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