António Saragoça nasceu em Igrejinha, em 1941, de onde saiu para ir trabalhar com apenas nove anos. Teve vários ofícios, até se estabelecer como proprietário de uma mercearia na aldeia das Ilhas, também no concelho de Arraiolos, onde reside há 57 anos. Talvez por ser muito novo quando deixou Igrejinha, não se lembra das Festas de Nossa Senhora da Consolação, mas faz décimas desde os 15 anos. Aprendeu com o irmão mais velho e com as quadras que então se vendiam de porta em porta, em dias de festas e feiras, e que ele comprava.
Em 1983, estreou-se nas Festas de Nossa Senhora da Consolação, em Igrejinha, influenciado por um amigo, e as suas décimas foram consideradas as melhores. Ganhou um prémio, mas decidiu não voltar. Anos mais tarde, retomou a prática de declamar décimas à Santa, que mantém até hoje.
Sílvia Pontes é de uma geração mais nova, comprometida em não deixar morrer a tradição de Igrejinha, onde nasceu em 1977, tendo mudado a residência para Évora aos 26 anos. As suas recordações da festa em honra da padroeira da aldeia, onde ia com os pais, permanecem vivas na sua memória e estão estreitamente ligadas à infância. Em 2018, estreou-se como decimeira para cumprir uma promessa e, desde então, tornou-se uma participante constante, tendo já aprendido a fazer décimas segundo as instruções dos mais velhos.
São duas das histórias de vida inseridas no Repositório da Memória das Décimas e Decimeiros de Igrejinha, uma plataforma na internet para valorização da prática poético-religiosa que se realiza anualmente na aldeia, em honra de Nossa Senhora da Consolação, traduzindo-se na declamação de décimas à Santa por homens e mulheres da comunidade.
O arquivo online inaugura-se com um vasto conjunto de décimas e estará em permanente atualização, sucedendo à publicação do livro “Décimas à Senhora da Consolação – uma prática que resiste em Igrejinha, Arraiolos”, de autoria de Florêncio Cacête, investigador do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora.
Florêncio Cacête esclarece que o livro nasce «a partir das gravações de alguns decimeiros», feitas através de um protocolo com a Câmara de Arraiolos, que levou a cabo em 2022, no âmbito de projetos para a Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, a que também está ligado. «Era uma prática que não conhecíamos. Fiquei com o contacto dos decimeiros, voltei à conversa com eles e comecei a perceber que todos tinham em casa um arquivo de décimas impressionante. E, tal como diz Francisco Fonseca nesse ano, nas suas décimas, “pena é haver tanto papel ao desbarato e não haver um livro sobre a prática”. Aquilo despertou-me a curiosidade».
Começou a trabalhar o tema, para logo perceber a dimensão dos arquivos existentes. «Não haveria livros que chegassem para publicar tantas décimas». Este reúne várias desde 1972, de diferentes decimeiros. No dia da publicação foram oferecer-lhe mais décimas, levando-o a analisar a possibilidade de «avançar» para um suporte digital, para que todos tivessem acesso ao espólio. O Município de Arraiolos veio ao encontro dessa ideia, «ao sugerir que seria interessante avançar com este projeto e deixar para memória futura o património de vários decimeiros, que ao longo do tempo têm dito décimas».
Todos os anos, em setembro, durante as Festas de Nossa Senhora da Consolação, homens e mulheres da comunidade declamam publicamente décimas à padroeira da terra. Chamam-lhes decimeiros ou poetas populares. Não se sabe de onde vem a prática «poético-religiosa», tema que leva Florêncio Cacête a desenvolver trabalho de investigação na área.
Antes do livro, «não se conhecia sequer» onde «situar» as festas, o que diz ter ficado esclarecido durante o trabalho de coordenação, ao encontrarem uma folha de ata da Junta da Paróquia, datada de 1837, onde se refere que as festas devem continuar a fazer-se «tal como antigamente». Seriam anteriores a essa data, o que não significa que já houvesse decimeiros ou décimas. O decimeiro mais antigo com quem o investigador falou «consegue localizá-las em 1939», mas documentalmente não se consegue provar «antes desse ano».
As décimas eram declamadas em frente a um grande pendão da Santa e em cima de uma cadeira; atualmente, são ditas em frente à própria imagem, no largo da igreja, sobre um palanque montado para o efeito. «Sendo uma tradição que se mantém ao longo do tempo, é natural que vá evoluindo e adaptando-se aos tempos».
O investigador esclarece que a singularidade desta prática reside no facto de os decimeiros mais antigos «continuarem a respeitar a composição da décima espinela», que surgiu pelos séculos XVII/XVIII – um esquema rimático em que praticamente cada verso tem oito sílabas. «Refazendo, sugerem que as décimas possam vir de alguma antiguidade».
Acredita-se que foram sendo transmitidas geracionalmente e também através da literatura de cordel: folhetins que eram distribuídos e vendidos em feiras e festas. Outra particularidade é que «todas as décimas terminam em Senhora da Consolação». Ao longo do tempo, refere o investigador, têm vindo a ser «um bocadinho» alteradas.
A forma como são ditas é mais uma exceção, sendo que os decimeiros mais antigos declamam-nas de forma cantada. «Há todo um ritual, em que cada vez que se diz uma décima é lançado um foguete e a banda filarmónica presente toca um pouco, antes de passar à próxima décima». A declamação é, ainda hoje, «um dos pontos altos da festa à Senhora da Consolação», fusão de cultura popular com religiosidade. Ou, como refere Florêncio Cacête, «uma das peças do património religioso e identitário da freguesia de Igrejinha», já que se trata de um ritual único no Alentejo e no país.
Inaugurado com um amplo conjunto de décimas, o Repositório da Memória das Décimas e Decimeiros à Nossa Senhora da Consolação estará em permanente atualização. A ideia é que todas as pessoas que, ao longo dos tempos, tenham dito décimas, as façam chegar para publicação no site, com respetiva biografia. «É um repositório para que cada vez mais se possa estudar e divulgar esta prática que é única. E, ao mesmo tempo, valorizá-la, mostrando e fazendo com que as pessoas se interessem pelo tema e algumas até possam vir a participar», refere.
E há já a participação ativa de uma geração mais jovem. É o caso de Rafael Madeira, 15 anos, o decimeiro mais novo com biografia na plataforma. Nasceu em Portel e reside em Igrejinha desde os seis anos. No ano seguinte, «descobriu» as Festas de Nossa Senhora da Consolação. De acordo com o investigador, o jovem, que é neto de um repentista de Igrejinha, declamou pela primeira vez à padroeira quando tinha 12 anos, continuando a dizer décimas todos os anos desde então. «Diz que é uma coisa que faz mesmo com gosto. Está a seguir as pisadas do avô. Ele próprio também tem um bocadinho de repentista, tem uma excelente memória».
Outro decimeiro da «nova» geração é José Coelho, 31 anos, que «ganhou o gosto» pelas décimas na escola primária, a partir da iniciativa de uma professora que levou à sala de aula o decimeiro Genésio Pontes, falecido no ano passado, que José considera seu «mentor». O investigador refere ainda Sílvia Pontes, professora em Évora, já citada, «como tendo um estilo também muito próprio de fazer décimas».
Segundo Florêncio Cacête, há já alguma «passagem de testemunho», mas ainda não suficiente. Ainda assim, o livro, o site e alguma intervenção que a Câmara ou a Junta de Freguesia possam desenvolver nas escolas, neste âmbito, podem — e ainda vão muito a tempo — «reverter a situação».












