Barranquenho: Uma língua em busca do (merecido) reconhecimento

Idioma único derivado de duas línguas, o barranquenho tem origem na Idade Média e sonha vir a ser língua cooficial. A 26 de novembro de 2021 um projeto aprovado na Assembleia da República reconhecia o direito a cultivar, promover e valorizar o barranquenho, mas sem orçamento é difícil implementar essas medidas. Júlia Serrão (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

‘Quasi que mê caio’, ‘não dô abádo a tanta coisa’, ‘belá a bê si tá chobendo’. Não percebeu? É natural. São frases e expressões populares barranquenhas, o dialeto raiano falado no concelho de Barrancos. Significam, por ordem: ‘por pouco não caí’, ‘não consigo fazer tanta coisa’ e ‘vê lá se está a chover’.

A vila de Barrancos conserva um dialeto próprio que resulta do contacto entre os falantes de um lado e do outro da fronteira. Com o envelhecimento da população e o despovoamento galopante no concelho, como acontece no resto do território alentejano, o número de falantes diminuiu e a língua chegou a correr o risco de vir a fazer parte do grupo de idiomas em perigo de extinção, não fosse uma combinação de esforços.

Seguidora dos trabalhos exploratórios do etnólogo e filólogo José Leite de Vasconcelos em Barrancos, que publicou o livro “Filologia Barranquenha” em 1940, e aceitando o desafio de Lindley Cintra para estudar o barranquenho nos anos 80, a linguista María Victoria Navas, professora jubilada da Universidade Complutense de Madrid e investigadora do Centro Linguístico da Universidade de Lisboa, publicou em 2017 o título “O Barranquenho – Língua, Cultura e Tradição” (Edições Colibri). É a responsável cientifica por não deixar morrer a língua, e provavelmente quem mais sabe sobre o tema.

A investigadora explica que para se perceber a atual situação da raia é necessário recuar pelo menos até à Idade Média, quando esta era “uma zona de limites imprecisos onde circulavam pessoas, animais e comércio”. O que só se vai alterar em 1864, com a assinatura do Tratado de Lisboa entre Espanha e Portugal, “definindo com precisão” a fronteira entre os dois países – com exceção da atual Olivença.

Nota que em 1864 “já estava criada uma série de condições linguísticas que, apesar das diferentes políticas” dos dois países, “não puderam ser resolvidas, favorecidas por relações” de séculos: nomeadamente casamentos, comércio, refugiados

políticos, emigração e contrabando. María Victoria Navas diz também “que os laços seculares entre os povos fronteiriços fomentam uma identidade fronteiriça”, com cultura, folclore, e em certos casos “uma língua comum, mental e fisicamente alienados uns dos outros”.

Em algumas terras foi criada uma língua nova, mista, consequência do contacto do espanhol e do português, e “fruto de variedades meridionais das respetivas línguas”. É o caso do barranquenho, “resultado de uma grande repovoação de castelhanos que se situa na Idade Média e cuja presença se manteve e reforçou ao longo dos séculos”. De qualquer forma, pensa-se que o “repovoamento dos súbditos” dos reinos de Leão e Castela, chamados pela Ordem de Avis na Idade Média, terá sido determinante, levando “à presença da língua castelhana nestas terras lusas”.

A investigadora recorda ainda que praticamente não existe uma fronteira física entre Barrancos e as terras espanholas, e que “não existindo escolaridade obrigatória em português” até abril de 1974 – a maioria dos habitantes era analfabeta –, a “influência da língua portuguesa era minoritária”.

Apesar do desaparecimento dos mais velhos e da saída dos mais jovens, o barranquenho foi persistindo no âmbito da oralidade. Mas a necessidade de se proceder ao seu registo escrito está cada dia mais presente, no contexto de outros avanços.

O primeiro passo é de 24 de junho de 2008, data em que a Assembleia Municipal de Barrancos aprova a classificação do dialeto como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal para “sensibilizar a comunidade a promover uma expressão oral, que em poucas gerações corre o risco de não sobreviver à padronização inerente à escolarização e ao envelhecimento da população”, conforme fica escrito em ata.

María Victoria Navas diz que houve sempre “iniciativas centradas na língua e na cultura barranquenha”, para recordar que em 2018 era assinado um Programa de Proteção e Valorização do Barranquenho entre o Município de Barrancos e várias entidades universitárias e cientificas.

PROTEGER E VALORIZAR

Por fim, a 26 de novembro de 2021, a Assembleia da República aprovava por unanimidade um projeto-lei que reconhece o direito a cultivar e promover o barranquenho, estabelecendo medidas para a sua proteção, promoção, e valorização. Através do projeto de lei, “o Estado Português reconhece o direito a promover o barranquenho enquanto veículo de transmissão do património cultural imaterial, instrumento de comunicação e elemento de reforço de identidade da população de barrancos”.

Também reconhece o direito à aprendizagem do barranquenho nas escolas, em articulação com o município e o agrupamento de escolas. E ainda “o apoio cientifico e educativo tendo em vista a investigação académica, a promoção da constituição de centros de estudo e documentação, o desenvolvimento de uma convenção ortográfica e a formação de professores de barranquenho e da cultura local, em termos a regulamentar”.

No entanto, refere a investigadora, o reconhecimento “a nível de decreto não determina um estatuto cooficial constitucionalmente consagrado, porque, se assim fosse, a Constituição portuguesa já teria contemplado o mirandês, cujos direitos linguísticos foram reconhecidos em 1999”.

María Victoria Navas nota que a promulgação de uma lei “sem um orçamento implícito para a sua execução não será produtiva”, e esse orçamento não foi aprovado para implementar o que se propunha, ou seja, “a proteção, promoção e valorização da língua e da sua identidade cultural, da emissão de documentos acompanhados de uma versão do barranquenho, e da formação de professores”, entre outras medidas.

Ainda de acordo com a sua opinião, nos dois casos, o mirandês e o barranquenho, mas também no minderico – falado numa pequena freguesia do Centro do país, que se diz ter surgido no século XVII como código secreto de fabricantes e comerciantes de mantas – “tratar-se-ia de serem reconhecidas como línguas cooficiais, tendo assim o mesmo estatuto a todos os níveis da língua portuguesa e do seu reforço económico”.

A investigadora, que é uma das responsáveis pelos trabalhos que estão a ser desenvolvidos no âmbito do Programa de Preservação, Estudo e Valorização do Património Linguístico e Cultural de Barrancos, dá conta da continuidade dos trabalhos após uma interrupção devido à pandemia.

Depois de “várias versões e consultas diretas à comunidade”, o Acordo Ortográfico está praticamente fechado, e prevê-se a divulgação do dicionário trilingue – barranquenho, português, espanhol –, com base em questionários e consultas anteriores a falantes de barranquenho, nos próximos meses. María Victoria Navas explica que é desejo dos responsáveis pelo programa que este termine em julho, com um Congresso onde serão dados a conhecer os resultados alcançados.

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