No Alentejo não se diz “vou a casa da”, diz-se “vou à da”, porque há casas que não são de pedra nem de tijolo, são da gente que lá mora. São feitas do cheiro de café com leite, da toalha de renda na mesa da cozinha ou do cadeirão onde se sentava sempre o mesmo. Ir “à da Manela” era saber que a casa era mais do que um espaço, era amizade, partilha, pertença e, talvez por tudo isto, também confiança.
Num tempo em que tudo parece ser de todos, mas nem tudo se sabe de quem é, o digital voltou a chamar-nos a esta ideia antiga de comunidade. Não é novidade, já antes se partilhava o forno do pão ou a matança do porco. Um fazia hoje, outro ajudava amanhã, cada um com o seu, mas todos com um bocado do dos outros.
O segredo estava em saber que havia uma lógica invisível a unir as vontades, uma rede que se fiava com tempo, com compromisso e com verdade. Hoje, essa rede ganhou novos fios de dados, de sensores, de aplicações, de plataformas.
Mas o princípio é o mesmo, nenhuma aldeia digital vive sem confiança, porque partilhar deixou de ser apenas uma escolha, passou a ser o único caminho possível de trilhar para chegar. Partilha-se conhecimento, partilha-se esforço, partilham-se ferramentas e, quando damos por isso, já estamos todos a chegar à aldeia onde a vizinhança se faz de redes e a confiança ainda mora à mesa.
A sabedoria popular sempre soube que há coisas que só fazem sentido em conjunto. O saber do campo é mais do que sabedoria, é inteligência que antes de ser artificial era relacional de quem sabe com quem contar, a quem pedir e com quem partilhar. No mundo digital, essa sabedoria traduz-se na capacidade de ligar sem querer dominar, de contribuir sem acabar a controlar e de construir algo comum com base no que cada um sabe fazer melhor.
Há quem confunda o digital com o fim das relações humanas, mas talvez não seja por aí. Talvez, ao partilharmos recursos, aplicações e experiências, criemos uma nova forma de proximidade, como os antigos que punham a bacia do pão ao sol para levedar mais depressa, hoje colocamos os nossos algoritmos a aprender uns com os outros. E o que parecia ser apenas conveniência, revela-se como sendo práticas, crenças e comportamentos partilhados por um grupo.
Tal como no Café Central (que também podia ser o Coelho ou “à do Augusto”), onde se discutia tudo sem nunca resolver nada mas onde tudo se decidia, ou nos bailes de verão onde se celebravam as uniões antigas e se chamavam as moças para dançar para as uniões futuras, o digital também pode ser um ponto de encontro, entre vontades, entre saberes, entre mundos.
Na nuvem ou na eira, o que importa é sempre quem lá está. Partilhar não chega, é preciso saber com quem se partilha. A confiança não é um botão que se carrega para aceitar as letras pequeninas, é um carreiro batido com tempo e cuidado, que se constrói como se guarda a receita das queijadas de leite, com afeto, atenção e uma pitada de segredo.
Num mundo de algoritmos e plataformas, o maior desafio é não perdermos o fio à meada. Talvez o foco não seja afinal a construção de sistemas, mas o tecer de comunidades, como as colchas de retalhos que se faziam ao serão, com bocadinhos de cada um e, no fim, era a manta de todos.
Ir “à da Manela” é, afinal, entender que há casas que são portas abertas, que há transformações que só fazem sentido se forem com todos e que a confiança, no fundo, é como o pão quente com manteiga: partilha-se.
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