“Quando acabei o curso e comecei a pensar o que ia ser a minha pintura, escolhi a paisagem como uma espécie de tema, o fio condutor de toda a minha pintura. E tenho andado sempre a fazer coisas para homenagear a paisagem que, no meu caso, tem origem no Alentejo, dos vários momentos do dia, das estações do ano (…) essas coisas todas que nós temos de uma vivência interior muito forte, e que de algum modo pretendemos e queremos passar para a pintura”.
Em 2021, Armando Alves voltou à Galeria de Arte São Mamede em Lisboa, dessa vez com a exposição “Depois Veio a Paisagem”, registada em vídeo que pode ser visto na página da galeria na internet. As palavras, proferidas enquanto pinta a partir do que pode ser o seu atelier, servem de introdução à pequena peça que conta com o testemunho do poeta e ensaísta Bernardo Pinto de Almeida, numa análise à obra do pintor, que num momento posterior o acompanha pelas várias salas da exposição.
Armando Alves, pintor e designer gráfico, um dos grandes artistas plásticos portugueses da segunda metade do século XX, nasceu em Estremoz a 7 de novembro de 1935. Como refere numa curta autobiografia que escreve para o Jornal de Letras, em 2009, teve uma infância feliz “na companhia” de familiares e amigos que começou “a descobrir na escola primária”.
O interesse por o desenho surgiu quando frequentava a Escola Industrial, onde, dizia, teve “a sorte” de conhecer dois professores que “influenciaram decididamente” a sua vida: Irondino Teixeira de Aguilar, autor de vários livros, e o poeta Sebastião da Gama, que convenceram os pais do pintor a mandarem-no para Lisboa, estudar numa escola que desse acesso às Belas Artes. Muda-se para a cidade onde faz o curso de Preparação às Belas Artes da Escola António Arroio, vivendo sozinho num quarto arrendado.
O facto de nunca se ter ligado “o suficiente para gostar” da cidade e, porque a Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) “era mais bem cotada da que a de Lisboa”, explicava em entrevista ao jornal Público em 2015, fizeram-no mudar-se para o Norte, fixando-se entre a cidade do Porto e Matosinhos, onde ainda hoje vive.
Concluiu o curso de pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) com 20 valores, e aceitou o convite para se juntar ao corpo docente como professor assistente: função que vai exercer entre 1963 e 1973, introduzindo o estudo de artes gráficas, área a que vai a dedicar-se, contribuindo para a sua inovação e valorização. Ficou ligado profissionalmente às Editoriais Inova, Limiar e Oiro do Dia.
Dirigiu graficamente várias obras literárias, produziu cartazes, catálogos de exposições, memorativos publicitários e programas de concertos, e fez vários projetos com o editor Cruz Santos e o poeta Eugénio de Andrade. Dos muitos trabalhos no domínio das artes gráficas, destacam-se, por exemplo, o cartaz e os cenários da peça “Lux in Tenebris”, apoiado num texto de Bertold Brecht, e a organização da exposição dos 30 anos de Eugénio de Andrade, na Fundação Engenheiro António de Almeida, no Porto.
Em 1983 foi premiado na Mostra de Artes Gráficas Grafiporto, no Museu Nacional de Soares dos Reis, e em 2009 foi-lhe atribuído o “Prémio de Artes Casino da Póvoa”. Entretanto, em 2006, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, tinha sido condecorado com o Grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito, pelo então Presidente da República, Cavaco Silva.
Armando Alves faz a primeira exposição individual em 1956, em Lisboa e na Póvoa do Varzim. E entre 1968 e 1971 vai fazer várias exposições coletivas em Portugal e no estrangeiro com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, num grupo que formaram com a designação “Os Quatro Vintes”: a nota com que todos concluíram os respetivos cursos na ESBAP.
A pintura “manteve-se sempre”, enquanto exercia as atividades de professor e artista gráfico, ainda que em alguns períodos não criasse com tanta regularidade. Reconhece-se “essencialmente um pintor”, apontando, na mesma entrevista: “Se analisarmos bem, a minha obra gráfica é, de certo modo, a continuidade da pintura de outra forma. Está lá aquilo que se aprende na pintura. Sobretudo a depuração das coisas está plasmada na minha atividade das artes gráficas”.
Uns associam-lhe a pintura à do britânico William Turner, considerado um percursor do Impressionismo e um dos fundadores da aguarela paisagística. Analisando a mostra de “Depois Veio a Paisagem”, Bernardo Pinto de Almeida refere que a paisagem de Armando Alves “ganhou nos últimos 10 anos uma força abstrativa muito grande (…), com cristais coloridos que têm um brilho e uma intensidade que lembra Klimt [Gustav]” – o artista austríaco, cuja última fase se aproxima dos ideais estéticos do movimento da Arte Nova. O poeta e ensaísta enaltece-lhe “o olhar muito inteligente e muito culto”.
Ainda de acordo com Pinto de Almeida, Armando Alves “tem de ser pensado, lado a lado, com Eugénio de Andrade, que é também um poeta dos grandes espaços e da reverberação do vento, desse sentimento do mundo a acontecer pela primeira vez que a paisagem [do pintor] oferece”. Afirmava-o como um dos “grandes paisagistas portugueses do século XX”, cujo impacto da pintura ainda está por avaliar.
“Cada exposição (…) é um ciclo de trabalho”, sendo “uma forma” do artista se rever e depois se transmitir ao outro na sua criação, notava Armando Alves, explicando que daí por vezes “houvesse encontros e depois desencontros”, mas existindo sempre “vida”.
“Não se nasce impune no Alentejo, menos ainda quem um dia se descobre pintor”, escreveu o poeta Eugénio de Andrade sobre o artista plástico, a que o historiador e crítico de arte José-Augusto França chamou “alentejano tranquilo”. Já Laura Castro refere-o como um pintor de paisagens onde é possível perceber “o prazer do atelier”, sendo a opinião da historiadora de arte partilhada pelo escritor José Saramago num texto que escreveu sobre Armando Alves, com o título “Inventor de Céus e Planícies”.
Ao jornal Púbico, o pintor dizia a propósito: “A paisagem que eu pinto não existe, de facto. Tem a ver com o conhecimento que tenho do Alentejo (…) Mas é a paisagem profunda: a terra, as cores dos campos, o nascer das searas, as mudanças de cor (…) que depois procuro transmitir através da pintura. Mesmo quando ela se torna um pouco mais figurativa, quando a gente reconhece uma árvore, ou as árvores de uma paisagem, não são as árvores que existem. No fundo, são sempre as transformações pelo conhecimento que tenho dela”.
RELAÇÃO FORTE COM O ALENTEJO
Armando Alves continua a manter uma relação forte com o Alentejo, voltando à casa onde nasceu sempre que pode. Quando prepara uma exposição de pintura prefere mesmo vir trabalhar para Estremoz, recolhendo-se no silêncio da planície. O atelier que construiu “de raiz”, não sendo grande é perfeito do ponto de vista da luz, refere em várias entrevistas. “Lá não preciso de luz artificial, tenho uma luz natural espantosa”.