Aideia do “Cá se faz” surgiu há cerca de um ano e meio, após o reconhecimento de que a cidade de Beja não possuía um sítio para divulgação do artesanato local. O projeto partiu da iniciativa de artesãos, que se conheciam de feiras e estavam a par do trabalho desenvolvido uns pelos outros. Inicialmente o objetivo era arranjar um espaço relativamente grande, que para além de constituir um ponto de venda funcionasse também como um atelier, onde estes artesãos pudessem trabalhar em simultâneo, estimulando, então, a aprendizagem e a criação conjunta.
Como o Município não lhes apresentou uma solução, decidiram avançar por conta própria. Encontraram um espaço exíguo, com cerca de 12 metros quadrados, no centro da cidade, que só lhes permitia vender as suas peças. Agora mudaram-se para a Rua Gomes Palma, num espaço de partilha artística, aberto às mais variadas formas de expressão, desde cerâmica a bijuteria ou costura. Haverá também oportunidade para mostrar trabalhos de outros artistas.
Maria José Pereira, de 64 anos, foi durante toda a sua vida empregada de escritório. Sem se sentir profissionalmente realizada, há cinco anos pediu a demissão e passou a dedicar-se ao que realmente gosta… o artesanato, criando a DesaFio. Nos tempos de liceu, recorda, já era ela que fazia a sua própria roupa, embora também trabalhasse o barro, produzindo peças que tentava vender aos amigos.
No “Cá se Faz” dedica-se, sobretudo, ao trabalho com têxteis, que aprendeu a ver fazer. “Chegava a uma feira e ficava a olhar para um artesão, ver como é que fazia as coisas. Só por curiosidade. E com a minha mãe sempre fiz o mesmo, ela nunca me ensinou costura apesar de ser costureira e eu também nunca lhe pedi, mas ia entendendo como é que as coisas se faziam”, conta Maria José, acrescentando que a sua base é o artesanato tradi- cional, a que dá “alguns retoques” com a sua visão contemporânea do mundo.
A par do sentido estético inclui nas suas obras uma componente de consciência ambiental que resulta na reutilização de têxteis: “Com os restos faço um vestido, depois faço um saco, depois uns brincos… vou utilizando o tecido até ao fim”.
Madalena Pacheco, de 44 anos, é a criadora da marca de moda sustentável “Bicho do Mato”. Com formação em animação sociocultural, trabalhava num centro de aconselhamento e apoio parental, mas pediu uma licença sem vencimento para se poder dedicar inteiramente a este projeto.
Tirou uma licenciatura em artes plásticas e multimedia, mas em plena pandemia descobriu que a sua paixão era outra. Segundo conta, estava um dia o namorado a fazer um furo num pedaço de madeira quando Madalena olhou e percebeu que dali poderia resultar um anel. A partir desse momento, o seu caminho tornou-se claro.
Iniciou o projeto há mais de três anos. O namorado, entretanto, juntou-se ao “Bicho do Mato” e dos anéis passaram para brincos, colares, pulseiras, acessórios e estatuetas decorativas.
Arquiteta de profissão, Maria Leonor Nobre deu aulas durante muitos anos devido à falta de trabalho na sua área de formação. Enquanto professora na Escola Profissional de Serpa pôde explorar a área das construções tradicionais, como a taipa e os adobes, que lhe interessava particularmente, ao mesmo tempo que se dedicava ao artesanato.
Dos esboços arquitetónicos resultam sobras de papel, que começou a moldar com uma argamassa de farinha e água de cal, a desenhar e a pintar, produzindo taças e jarras, por exemplo, com a marca “Pequenas Arquiteturas”. No edificado da cidade encontra inspiração para criar postais e ainda há tempo para se dedicar à escrita de contos, sempre ilustrados por si. “Desde pequenina que gosto muito de desenhar”, conclui.