“Aideia”, conta Manuel Sánchez, “surgiu há muitos anos e a razão foi por- que pensei que deveria haver alguma testemunha escrita do português alentejano oliventino, que já está quase extinto”. A ideia era publicar um livro. E ele aí está: “U Príncipi Piquinínu”, uma tradução direta do francês para o português oliventino de “O Pequeno Príncipe”, a eterna história escrita por Saint-Exupéry. “É uma tradução integral e escolhi esta obra por se tratar de um livro traduzido em muitas línguas e dialetos do mundo”.
Manuel Sánchez nasceu em Barcelona, para onde os pais se mudaram. Mas eles, os pais, eram naturais de Vila Real, uma pequena aldeia situada nas proximidades de Olivença, bem em frente da fortificação de Juromenha. E mesmo longe da terra, os oliventinos falavam português entre eles, como se estivessem em Olivença. Foi assim que aprendeu.
“A família do meu pai (pescadores tradicionais do Guadiana) costumava falar espanhol, mas conheciam o português por tradição e pelo contacto que tinham com os vizinhos de Juromenha, por exemplo. A família da minha mãe, como quase todas as oliventinas, falava português”, recorda Manuel Sánchez, sublinhando que os oliventinos “falavam português com sotaque alentejano e espanhol com sotaque estremenho (eram bilingues, e muitos analfabetos”.
Mais ainda: “os que aprendiam a ler e escrever em espanhol deixavam o português, que era língua considerada inferior e de um país mais pobre”. No seu caso, “sempre quis aprender português e aprendi passivamente, porque, quando quis começar a falar, pude falar”.
Por português oliventino entenda-se o português alentejano falado nos concelhos de Olivença e Táliga, “semelhante ao de Elvas e Campo Maior, por exemplo”, mas com mais espanholismos pelo meio. “Da mesma maneira, o espanhol oliventino é um castelhano estremenho com lusismos”, sublinha. De qualquer forma, a língua está quase extinta, sendo apenas falada por pessoas nascidas nos anos 30 e 40 do século passado.
Em termos literários, que Manuel Sánchez saiba, só existem impressos em alentejano oliventino “alguns poemas de Curro Gadella e de Servando Rodríguez”, dois autores de Olivença. Como não existe dicionário, nem gramática, a grafia utilizada neste “U Príncipi Piquinínu” foi totalmente inventada por Manuel Sánchez. “O que havia era a tradição oral, que foi interrompida quando os últimos falantes já só usavam o espanhol com os filhos. Esta tradução foi pensada para poder ser lida por leitores de português e de espanhol”.
Aqui chegados, parece inevitável estabelecer algum paralelismo com o barranquenho. “Só o ouvi uma única vez”, confidencia o autor, arriscando que enquanto em Olivença havia duas “línguas populares”, em Barrancos havia três: espanhol, andaluz e barranquenho. “O que é verdade”, enfatiza, “é que os barranquenhos conservam as suas três línguas, contrariamente ao acontecido em Olivença, onde só ficou o espanhol”.

Manuel Sánchez não acredita na existência de qualquer hipótese em evitar o desaparecimento deste alentejano oliventino. “O que existe é aprendizagem do português padrão por parte da população, mas o padrão não é o oliventino”. Por outro lado, com a morte dos velhos, acaba-se a tradição oral. “Portugal abandonou Olivença, portanto agora os ministros [Nuno Melo] podem falar, mas já é tarde, quer quanto à soberania, quer quanto à língua”. A que acresce o facto de, em Espanha, “continuarem a ser faladas todas as línguas, menos o oliventino”.
Quanto ao livro propriamente dito, publicado pela editora alemã Tintenfass, o modo mais fácil de o adquirir será junto do autor. “As livrarias e a Câmara de Olivença não querem saber do assunto”, lamenta.