Nascido em 1948 em Lisboa, José António Saraiva assumiu a direção do semanário “Expresso” na década de 80 do século passado e foi o diretor que esteve mais anos à frente do título, no total de 22 anos. Posteriormente, abandonou o jornal para fundar o semanário “Sol”.
Na crónica de 28 de fevereiro no “Sol”, com o título “Não é uma despedida”, José António Saraiva escreveu que nunca sentiu jornalista. “No jornal as pessoas mais velhas tratavam-me por ‘Zé António’ e as mais novas por ‘arquiteto’ ou ‘diretor'”, relatou.
“Como arquiteto senti-me um deus. Ver um sítio e imaginar para ali uma construção, desenhá-la, acompanhar a edificação, ver um edifício onde antes não havia nada e saber que vai ali ficar por umas dezenas de anos. Um jornal compra-se e deita-se no caixote do lixo no dia seguinte. Um jornalista é um funcionário que pode influenciar pessoas, mas não deixa uma marca, um marco no lugar”, expressou José António Saraiva, numa altura em que já se sabia doente.
José António Saraiva era filho do ensaísta, historiador e crítico literário António José Saraiva e sobrinho do historiador José Hermano Saraiva. Completou o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa em 1973, tendo a sua carreira nesta área se circunscrito ao período de 1968 a 1983, em que colaborou com Manuel Tainha, de acordo com um artigo do “Expresso” datado de 15 de novembro de 2003.
Ainda teve uma “passagem efémera” como professor de “Escrita para Televisão” no Centro de Formação da RTP, entre 1977 e 1980, além de realizar o documentário “O 25 de Abril – Três Anos Depois”, relata um amigo próximo. Em síntese, foi diretor do semanário “Expresso” entre 1983 e 2005, fundador e diretor do semanário “Sol” entre 2006 e 2015 e ganhou o Prémio Luca de Tena de jornalismo ibérico do diário espanhol “ABC” em 2005.
Foi professor convidado da Universidade Católica no Instituto de Estudos Políticos, onde lecionou entre 2000 e 2015 a cadeira de política portuguesa, tendo publicado vários livros de política e história, e também quatro romances. Uma das obras mais polémicas foi “Eu e os Políticos”.
Na sua última crónica no “Sol”, José António Saraiva resume o seu percurso, contando que começou a escrever nos jornais com 17 anos, pelas mãos de Mário Castrim, no “Diário de Lisboa Juvenil”. Depois colaborou com o “Diário de Lisboa”, “A Bola”, o “Espaço T Magazine”, “A República”, o “Portugal Hoje”,” até que um dia, em plena Praça do Rossio, em Lisboa, Vicente Jorge Silva o convidou para ser colaborador do “Expresso”.
“Assim iniciei uma colaboração que durou vários anos e foi muito entusiasmante até ao 25 de Abril. Aí ganhei o gosto pelo jornalismo (crónica, sobretudo, e crítica política e social) e com o Vicente Jorge Silva aprendi a importância decisiva da independência. Nunca deixei de ser rebelde e de contestar as ideias feitas”, admitiu.
“Qual era a ideia para o “Expresso”? Marcelo Rebelo de Sousa tinha saído para o Governo a convite de Francisco Pinto Balsemão e eu devia substituí-lo na página dois, que era a mais emblemática. Recusei a ideia de imediato. Eu era arquiteto, trabalhava no ateliê de Manuel Tainha, perto do Hotel Sheraton, gostava muito do que fazia e a ideia de me tornar jornalista não me aliciava de todo”, assumiu.
José António Saraiva fez uma contraproposta, “um texto mais pequeno, dedicado não à análise da semana, mas a um tema específico”, que foi aceite e passaria a chamar-se Temperatura Política, “mas depressa evoluiu para um mais provocatório: Política à Portuguesa”, “um sucesso imediato” que se tornou no “texto mais lido do Expresso, a ponto de eles acabarem com a métrica”.
Entretanto, o diretor interino, Augusto Carvalho, que tinha assumido o lugar com a saída de Marcelo Rebelo de Sousa, propôs-lhe se já tinha pensado em ser subdiretor do “Expresso”.
“Nunca tinha pensado”, mas ao fim de um mês “disse-lhe que sim”, relatou, referindo que teve o apoio do Vicente Jorge Silva. “A redação era uma jaula de leões. Jornalistas muito experimentados com o ‘rei na barriga'”, apontou, citando nomes “além do Vicente Jorge Silva”, como “o Joaquim Vieira, o José Júdice, a Maria João Avillez, o Benjamim Formigo, o Carlos Matos, a Madalena Martins, a Clara Ferreira Alves e ainda colaboradores como a Helena Vaz da Silva, António-Pedro Vasconcelos, Francisco Bélard, o Pedro d’Anunciação”, entre outros.
Os primeiros 10 anos “foram penosos”, mas “depois as coisas acalmaram”, “tomei o pulso à redação e o jornal cresceu muito, da casa dos 50 mil para os 100 mil exemplares”, enfatizou.
Depois de um período “muito criativo”, surgiu “O Independente” e “muitos pensaram que íamos ser engolidos, mas os Guias de Portugal, sobretudo, aguentaram-nos. Chegámos a imprimir 200 mil exemplares e o Paulo Portas deitou a toalha ao chão”, contou.
“Achei que era tempo de fazer outra coisa: um jornal mais leve, concorrente do “Expresso”, e propus a Francisco Pinto Balsemão. Estava há muito tempo na direção do jornal e era altura de outra experiência. Falei-lhe do assunto num almoço no English Bar, no Estoril. Ele ficou de pensar e uma semana depois disse-me que isso seria dar ‘um tiro no pé ou um pouco mais acima'” e “eu disse-lhe então lealmente que ia procurar outro interessado”, enquadrou José António Saraiva, dando conta do momento em que decide deixar o “Expresso” para fundar o “Sol”.
“Fiz o projeto de lançamento publicitário, que foi um êxito: no primeiro número vendemos 170 mil exemplares e fizemos uma festa de arromba no Museu de Eletricidade, antiga Central Tejo. Estava lá Portugal inteiro. Uma pedrada no charco. Foi uma lufada de ar fresco”, mas depois “começámos a cair, não sei se por erros meus se por outra razão, mas todos os jornais começaram a cair em todo o mundo”, recordou, referindo que hoje em dia “só os velhos” é que leem jornais.
Contudo, o “Sol” hoje “continua a brilhar”, o que “é obra, quase 20 anos depois, num ambiente hostil onde os jornais caíram a pique. Mas é a prova da força de um projeto e da sua independência”, rematou.
PRESIDENTE MANIFESTA TRISTEZA
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou hoje tristeza pela morte de José António Saraiva, recordando o seu contributo como analista político e cronista histórico nas décadas de 80 e 90.
Numa nota na página da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa assinala que José António Saraiva, para além da atividade como arquiteto, dedicou-se à história, sobretudo a história política contemporânea e “teve um papel muito importante” durante certo período da vida do “Expresso”, como “analista político, como cronista histórico e como diretor de publicações”.
“É impossível contar o período das décadas de 80 e 90 sem mencionar o seu contributo, herdeiro de uma linhagem familiar também muito rica, em que avultam seu pai António José Saraiva e seu tio José Hermano Saraiva”, considerou o Presidente da República, manifestando tristeza pela morte do arquiteto.
Fotografia | Alexandre de Barahona