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Dependência do álcool agrava-se. Há mais gente a pedir ajuda

Há mais pessoas dependentes do álcool a pedirem ajuda aos Centro de Respostas Integradas na região. São sobretudo homens, com mais de 50 anos.

Júlia Serrão (texto)

O consumo de álcool aumentou nos últimos cinco anos em Portugal e continua a ser a substância psicoativas mais consumida, segundo o mais recente Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População em Geral, promovido pelo Instituto para os Comportamentos Aditivos (ICAD).  Os primeiros resultados indicavam que a prevalência do consumo de álcool tinha subido mais de 50% depois da pandemia de covid-19.

O atraso na publicação do relatório final do referido inquérito, na sequência da dissolução da Assembleia da República não permite apurar com exatidão os números regionais. Mas dados da Divisão de Intervenção dos Comportamentos Aditivos e das Dependências (DICAD) do Alentejo mostram um aumento de pedidos de ajuda de dependentes de álcool no primeiro semestre de 2023. 

Os pedidos foram feitos junto das unidades de intervenção local especializadas, quatro em todo o território: os Centros de Respostas Integradas (CRI) do Baixo Alentejo, do Alentejo Central, do Norte Alentejano e do Litoral Alentejano.

Francisco Serrano, coordenador da Administração Regional de Saúde do Alentejo (ARS Alentejo), dá conta que nos primeiros seis meses de 2023 “havia 232 utentes com problemas ligados ao consumo abusivo de bebidas alcoólicas”, na região Alentejo. “Os números são objetivos e resultam da nossa atividade”, observa, referindo que nem todas as pessoas com o problema pedem ajuda ou têm noção da dependência. 

Do total de utentes com problemas ligados ao álcool que procuraram os serviços, 34% estavam em Beja, 25% em Évora, 27% em Portalegre e Elvas, e 14% no Litoral Alentejano. Para o coordenador, as variações existentes entre os territórios não são significativas do ponto de vista estatístico, e o valor mais baixo apurado no Litoral Alentejano “poderá ter a ver com características da própria região”.

HÁ MAIS HOMENS E PEDIR AJUDA

Os utentes dependentes de álcool da região Alentejo que pediram ajuda para controlar a dependência junto dos Centros de Respostas Integradas, são essencialmente do sexo masculino (87%), com idade média superior a 50 anos. Têm baixa escolaridade e profissionalmente estão reformados, desempregados, ou têm trabalhos ocasionais ou sazonais. “Não há muitos com emprego estável”.

Nos anos anteriores à pandemia de covid-19 já se havia registado um aumento de novos casos de dependência de álcool, indicados em pedidos de ajuda, mas a situação piorou a partir dessa altura. Na DICAD do Alentejo pensa-se que terá sido por causa do isolamento resultante dos sucessivos confinamentos, “o que foi agravado pela crise económica que se seguiu”.

O coordenador da ARS Alentejo chama ainda a atenção para o denominado ‘binge drinking’, ou seja, para o consumo excessivo e rápido de bebidas alcoólicas à margem do padrão de consumo diário, com vista a conseguir uma embriaguez rápida. A compulsão alcoólica é um fenómeno que “vem crescendo, principalmente entre os jovens, e começa a ser muito preocupante, trazendo consequências graves para a saúde física e mental”. 

Lembram o especialista que a causa das dependências, quaisquer que elas sejam, é “complexa e multifatorial”. Pode tratar-se de uma predisposição genética, dever-se a fatores ambientais ou de contexto, pressão dos pares, entre outros. Ou a vários fatores em simultâneo. Também “há eventos traumáticos da vida” que conduzem ao consumo excessivo “para compensar” uma espécie de vazio, e situações socioeconómicas complicadas, como o desemprego. 

Mas Francisco Serrano nota que há “algumas especificidades” relativas ao consumo de álcool, que não ajudam. Nomeadamente, “existe alguma tolerância social” relativamente ao consumo, para além de que “as bebidas alcoólicas são de fácil acesso e de baixo preço”, nalguns casos até “mais baratas que alguns refrigerantes”. 

RELAÇÃO ENTRE ÁLCOOL E DOENÇA MENTAL

Acresce que o alcoolismo pode determinar alterações psiquiátricas, que se traduzem em várias possibilidades. Segundo a coordenadora regional de saúde mental do Alentejo, a psiquiatra Ana Matos Pires, “para além de situações agudas que são, por exemplos, síndromes de abstinência ou de intoxicação aguda, que são considerados quadros psiquiátricos orgânicos, há uma relação, estudada e importante, com o aumento da prevalência de perturbações demenciais em consumidores crónicos de álcool”.

De um modo geral, em muitas ocasiões o consumo de álcool “pode estar associado a um quadro depressivo não diagnosticado”, explica, em que a bebida alcoólica funciona “um bocadinho como se fosse uma ‘anestesia’, no sentido de ser um meio de controlar os sintomas” depressivos. Acontece também muitas vezes no contexto das “fobias sociais ou noutras patologias de ansiedade”. 

A situação evolui do mesmo modo: a pessoa começa por consumir pequenas quantidades de álcool numa fase inicial, “como se fosse um ansiolítico fraquinho”, na fase seguinte passa a ter necessidade de beber cada vez mais para conseguir o mesmo efeito, e acaba a beber em excesso. A coordenadora regional de saúde mental do Alentejo explica que “qualquer um destas situações pode determinar o abuso secundário de álcool”, não sendo medicamente tratadas e acompanhadas, o que ocorre com bastante frequência. 

“É natural que a prevalência de quadros depressivos e ansiosos possa aumentar, em paralelo, o consumo de bebidas alcoólicas”, diz, sobretudo quando existe “uma normalização do uso do álcool”, o que acontece no Alentejo. “O uso do álcool é socialmente aceite” no território, “o que o potencia mais como muleta de sintomas depressivos e sintomas ansiosos”. 

Ana Matos Pires alerta para o que diz ser a relação biunívoca em que a doença mental pode ser um fator de risco para o alcoolismo, num primeiro momento pelo uso de bebidas alcoólicas como ‘ansiolítico’, e o alcoolismo vir, posteriormente, a agravar a doença mental. 

Vocacionadas para a problemática da dependência, as unidades de intervenção local especializadas estão a funcionar com graves carências de recursos humanos, lamenta Francisco Serrano, da ARS do Alentejo. Uma das mais preocupante é a falta de médicos.“Sei que é uma carência transversal a todos os serviços de saúde, mas ela incide com especial apreensão e intensidade na área dos comportamentos aditivos e dependências”, conclui.

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